A próxima venda da sua loja pode ser feita por um agente de IA

Durante vinte anos, uma loja online foi construída à volta de um percurso: a pessoa entra, pesquisa, abre uma categoria, compara, lê a ficha, adiciona ao carrinho e paga. Toda a indústria otimizou esse caminho, com menus melhores, filtros, fotografias maiores e checkouts mais curtos.

Agora imagine que o cliente não faz nada disso. Escreve apenas que precisa de sapatilhas impermeáveis para caminhada, calça 43, quer gastar menos de 120 euros e precisa delas antes de sexta-feira. A inteligência artificial pesquisa, compara, verifica preço, tamanho e prazo, apresenta duas opções, e ele responde que compra a primeira.

A loja fez uma venda. Essa pessoa pode nunca ter visto a página inicial.

Isto deixou de ser previsão. A Google e a Shopify têm vindo a alargar, ao longo de 2026, a possibilidade de concluir compras dentro do AI Mode e do Gemini, sem sair da conversa.

O que já funciona, e onde

Segundo a documentação da Shopify, o canal para Google AI Mode e Gemini permite que o cliente conclua a compra num checkout suportado pela Shopify sem abandonar a conversa. Nas lojas elegíveis, esse checkout direto está ativo por omissão, embora o comerciante o possa desativar e obrigar a concluir a compra no site. Os produtos chegam a estas experiências pelo canal Google e YouTube ou pelo Google Merchant Center.

E aqui está a ressalva que muda tudo para nós: para usar o checkout direto, a loja tem de estar sediada nos Estados Unidos e vender a clientes norte-americanos. Uma loja portuguesa não pode ativar isto hoje.

Seria um erro, no entanto, ignorar a mudança só porque ainda não chegou cá. A infraestrutura já está a ganhar escala. Por trás destas experiências está o Universal Commerce Protocol, que a Google apresentou em setembro como estando já a permitir checkout direto a centenas de milhares de marcas e retalhistas, número que é da própria empresa. O mesmo protocolo permite agora transferir um carrinho para o site do comerciante e testar fluxos diferentes.

A Google está também a lançar ferramentas que mostram ao comerciante como os seus produtos aparecem nas experiências de IA, e como se comparam com a concorrência em superfícies como o AI Mode e as AI Overviews. Durante anos houve SEO para perceber como aparecíamos na pesquisa. Começa agora a existir a camada equivalente para quando é uma IA a ajudar alguém a comprar.

O visitante pode deixar de ser humano

Esta é a mudança conceptual que interessa.

Até aqui, melhorar uma loja significava pensar na pessoa que navega. Agora pode passar a haver um segundo tipo de consumidor de informação: o agente que trabalha em nome dessa pessoa.

Para decidir, esse agente precisa de saber o que é o produto, quanto custa, se há stock, que variantes existem, quando chega, quanto custa o envio, qual é a política de devolução e que características tem. Se não conseguir determinar com confiança que aquele produto responde ao pedido, não o recomenda.

Imagine que alguém pede uma secretária com menos de 120 centímetros de largura, entregue montada. Se a sua loja vende exatamente essa secretária, mas a largura não está indicada e não há informação sobre montagem, o agente não tem como concluir que serve. Recomenda outra. O produto existe, o preço é competitivo, a loja funciona. A informação é que não chegou.

Uma fotografia bonita não chega

Imagine duas lojas com o mesmo produto. A primeira tem o nome, uma fotografia e duas linhas copiadas do catálogo do fornecedor. A segunda tem nome claro, marca, referência, material, tamanhos, cores, medidas, peso, stock, prazo de entrega, portes, política de devolução, perguntas frequentes e avaliações.

Qual delas é mais fácil de perceber para uma pessoa? A segunda. E para uma máquina? Também a segunda.

É por isso que preparar uma loja para a inteligência artificial não começa por instalar nada. Começa pelos dados. O catálogo deixou de ser uma tarefa de conteúdo e passou a ser infraestrutura.

Há um número que mostra a direção

Não há muitos dados públicos sobre isto, mas há um que vale a pena reter. A retalhista britânica John Lewis disse em setembro que as pesquisas originadas por agentes de IA passaram de 0,3% para 2,5% num ano.

Continua a ser uma percentagem pequena, e convém dizê-lo. Mas é um crescimento de mais de oito vezes em doze meses, e a própria empresa descreve a tendência como acelerada.

A parte incómoda: medição e confiança

Se parte da compra acontece dentro de outra plataforma, parte da sua visibilidade desaparece.

A documentação da Shopify é clara sobre isso: no checkout direto do Google AI Mode e do Gemini, o Google Analytics e os pixels personalizados do lado do cliente não são executados, existindo em vez disso eventos servidor a servidor para o início e a conclusão da compra. Depois de anos a instalar pixels em tudo, a medição vai ter de mudar. Escrevemos sobre esse trabalho em o Google Analytics já está instalado no seu site, e continua a valer.

Há também personalizações de checkout que não passam para este canal, e categorias que não são suportadas, como subscrições, conjuntos de produtos e artigos personalizáveis. Ou seja, isto não é pegar no seu checkout e pô-lo dentro de um chatbot. É um canal de venda novo, com regras próprias.

E há uma questão maior, levantada esta semana. A 22 de setembro, a Reuters noticiou que um grupo de bancos, incluindo o NatWest, o Bank of America, o ING, o Capital One, o ASB Bank e o Commonwealth Bank of Australia, publicou um conjunto de princípios a alertar que a tecnologia está a avançar mais depressa do que as normas do setor e as proteções ao consumidor.

Os riscos que apontam são concretos: agentes que pedem os dados do cartão e os introduzem em sites terceiros, encaminhamento para métodos de pagamento com menos proteção, fraude, e dúvidas sobre quem responde quando algo corre mal. Propõem, entre outras coisas, que seja obrigatório revelar quando um agente participa numa transação.

Isto não invalida o modelo. Mostra que está no início, e que a confiança vai ser parte da infraestrutura.

O website perde importância?

Não, mas o papel muda.

As pessoas vão continuar a visitar lojas, a querer conhecer a marca, ver fotografias e ganhar confiança. Muitas compras vão continuar exatamente como hoje. O erro é pensar isto como website ou IA. Vai ser website e IA.

Há compras em que o cliente quer explorar, e há compras em que só quer resolver. Quando alguém pede o carregador certo para um portátil, ao mais barato que chegue amanhã, a melhor experiência talvez não seja passar vinte minutos numa loja.

O que faria hoje uma loja portuguesa

Não tentaria ativar um checkout que ainda não está disponível cá. Prepararia a base, que é trabalho que rende de qualquer maneira, porque melhora também a pesquisa tradicional e a conversão.

Arrumar o catálogo. Atributos claros e consistentes em cada produto, não apenas o que é preciso para a página ficar bonita, mas tudo o que ajuda alguém, ou alguma máquina, a decidir se aquilo serve.

Rever as fichas de produto. As descrições devem responder às perguntas que um cliente faz antes de comprar, em vez de repetirem o catálogo do fornecedor.

Garantir dados estruturados. Produto, preço, disponibilidade, marca, identificadores e avaliações em formato que motores e agentes consigam interpretar.

Tratar o Merchant Center como infraestrutura, e não como um requisito de campanhas. Um feed limpo, atualizado e rico em atributos pesa cada vez mais.

Ligar stock, preço e logística. Um agente só pode prometer o que os sistemas confirmam. Stock desatualizado e prazos irreais tornam-se piores quando uma máquina decide com base neles.

Começar a medir tráfego vindo de assistentes de IA, mesmo que os números sejam pequenos. O objetivo hoje é criar histórico para daqui a um ano.

Pensar em integrações. Uma loja deixa de ser só uma interface visual e passa a ser também um sistema com o qual outros comunicam. Quem tem dados desorganizados e processos manuais vai ter muito mais dificuldade.

A próxima disputa pode não ser pelo clique

Durante anos competimos para levar uma pessoa até à loja, com pesquisa, anúncios, email e parcerias. O comércio mediado por agentes abre outra hipótese: talvez baste que a informação certa chegue ao agente certo no momento certo.

Escrevemos há dias que o próximo anúncio pode não abrir um site, mas sim uma conversa. Este artigo fecha o raciocínio: a seguir à descoberta, também a compra pode ficar lá dentro.

A loja online não vai desaparecer. Vai ser, ao mesmo tempo, uma experiência para pessoas, um catálogo compreensível por máquinas, uma fonte de dados e um sistema ligado a stock, pagamentos e logística.

Durante vinte anos perguntámos como levar mais pessoas à loja. A pergunta seguinte é outra: como garantir que os agentes que compram em nome dessas pessoas conseguem encontrar, perceber e escolher os nossos produtos.

Perguntas frequentes

O que é agentic commerce? É o comércio em que agentes de inteligência artificial executam partes do processo de compra, como descobrir produtos, comparar opções, verificar condições e, quando autorizado, concluir a transação.

Já é possível comprar dentro do Gemini? Sim, em lojas elegíveis. No caso da integração Shopify com o Google AI Mode e o Gemini, o checkout direto exige que a loja esteja sediada nos Estados Unidos e venda a clientes norte-americanos.

Uma loja portuguesa já pode vender assim? Ainda não, através dessa integração. Mas os protocolos estão a alargar e vale a pena preparar catálogo, feeds e dados estruturados desde já.

O website deixa de ser necessário? Não. Continua a ser o ativo central da marca e da operação. O que muda é que os seus dados passam a ter de ser compreendidos também por sistemas externos.

O Google Analytics mede compras feitas dentro do Gemini? Segundo a documentação da Shopify, no checkout direto os pixels tradicionais do lado do cliente não são executados, existindo eventos servidor a servidor específicos.

Como a Digito ajuda

Construímos comércio eletrónico como sistema, e não como um conjunto de páginas bonitas: catálogo, dados de produto, stock, pagamentos, faturação e logística ligados entre si. É exatamente essa base que passa a contar quando o comprador pode ser um agente a consultar dados em vez de uma pessoa a navegar.

Tratamos dos feeds e do Merchant Center como infraestrutura, dos dados estruturados e do trabalho de SEO e GEO que decide se o seu produto é interpretado como a resposta certa. Fazemos as integrações que ligam a loja aos sistemas internos, e deixamos a medição preparada para o tráfego que vem de assistentes de IA.

E somos diretos sobre o que ainda não existe cá. O checkout dentro do Gemini não está disponível para lojas portuguesas, e não o vendemos como se estivesse. O que se pode fazer hoje é a preparação, e essa compensa mesmo que nada disto chegue depressa.

Se vende online e quer perceber em que estado está o seu catálogo para este cenário, falamos sobre isso.

Fontes