A inteligência artificial já entrou na sua empresa. Provavelmente sem lhe perguntar.
Há dois números publicados que, postos lado a lado, contam uma história desconfortável.
Segundo o INE e o Eurostat, 38,7% dos portugueses usaram ferramentas de inteligência artificial em 2025. Estamos acima da média europeia, que é de 32,7%, e à frente de França e da Alemanha.
No mesmo período, apenas 11,5% das empresas portuguesas com dez ou mais trabalhadores usavam estas tecnologias. A média da União Europeia anda perto dos 20%.
As pessoas adotaram. As empresas onde essas pessoas trabalham, não.
Isto não significa que a inteligência artificial esteja fora da sua empresa. Significa quase de certeza o contrário: já lá está, foi levada pelos seus colaboradores, e não passou por si.
O que isto quer dizer na prática
Alguém na sua equipa colou a proposta de um cliente numa ferramenta gratuita para a reescrever mais depressa. Alguém traduziu um contrato. Alguém pediu ajuda a resumir uma lista de contactos.
Nenhuma destas pessoas fez nada por mal. Fizeram o trabalho mais depressa, que é exatamente aquilo que lhes pede.
O problema é que a informação saiu da empresa sem registo, sem contrato com quem a recebeu, e sem que ninguém saiba onde ficou. Se um cliente lhe perguntar amanhã onde estão os dados dele, não tem resposta.
E note-se: isto não é um problema informático. É um problema de gestão, e resolve-se com uma decisão, não com um programa.
Porque é que as empresas ficaram para trás
O INE também perguntou às empresas porque não usam estas tecnologias. As respostas são reveladoras:
| Razão apontada | Empresas |
|---|---|
| Falta de conhecimentos dentro da empresa | 74,4% |
| Os custos parecem demasiado elevados | 60,4% |
| Falta de clareza sobre as consequências legais | 57,3% |
| Preocupações com proteção de dados e privacidade | 55,4% |
Repare que nenhuma destas respostas diz "não serve para o meu negócio". Dizem "não sei por onde começar", "acho que é caro" e "tenho medo do que possa correr mal".
São três receios legítimos. E são todos resolúveis.
O custo é o mais fácil de desmontar
Seis em cada dez empresas acham que é caro. Mas os mesmos dados mostram que 67,4% das que já usam adotaram através de software comercial já pronto, e que esse foi o único modelo de adoção que cresceu em 2025.
Ou seja, a maioria não mandou construir nada. Passou a usar ferramentas que já existiam, muitas delas dentro de programas que a empresa já pagava.
O erro habitual é imaginar um projeto grande, orçamentar dezenas de milhares de euros, assustar-se e não fazer nada. O caminho que funciona é o inverso: escolher uma tarefa aborrecida e repetitiva, resolver essa, medir o tempo poupado, e só depois decidir se vale a pena ir mais longe.
Há uma data já marcada no calendário
A partir de 2 de agosto de 2026, entram em aplicação as obrigações de transparência do regulamento europeu de inteligência artificial.
Em português corrente: se tem um assistente automático a atender clientes no site, essa pessoa tem de perceber que está a falar com uma máquina e não com um funcionário. E conteúdo gerado artificialmente tem de ser identificável como tal.
As obrigações mais pesadas, as que se aplicam a utilizações classificadas como de alto risco, foram adiadas para dezembro de 2027. Isso deu a muita gente a ideia errada de que não há nada a fazer este ano. A parte da transparência mantém-se, e é precisamente a que toca a quem tem um site com atendimento automático.
Como sempre em matéria legal, confirme o seu caso concreto com quem o assessora. Mas não parta do princípio de que isto é assunto para 2028.
Por onde começa quem decide
Cinco passos, nenhum deles técnico:
- Pergunte o que já se usa. Sem repreender ninguém, ou não lhe dizem a verdade. Vai descobrir mais do que esperava.
- Escreva uma página de regras. O que pode e o que não pode ser partilhado com ferramentas externas. Uma página chega, e vale mais do que um manual que ninguém lê.
- Escolha uma tarefa concreta. Respostas a pedidos de orçamento, resumos de reuniões, descrições de produto. Uma só.
- Compre antes de mandar construir. Só se justifica desenvolver algo à medida quando já sabe exatamente o que quer, e isso só se sabe depois de experimentar.
- Verifique o que chega ao cliente. Nada gerado automaticamente deve sair da empresa sem alguém ler antes.
E quando não se deve usar
Uma nota que raramente ouvirá de quem vende isto.
Se a tarefa exige responsabilidade legal, se um erro custa dinheiro ou reputação, ou se ninguém na empresa tem competência para verificar o resultado, então a resposta certa é não usar. Automatizar um processo que já estava mal feito serve apenas para o fazer mal mais depressa.
A decisão inteligente nem sempre é adotar. É saber onde adotar.
Como a Digito ajuda
A distância entre os 38,7% e os 11,5% não é um problema de tecnologia. É um problema de ninguém ter parado para decidir.
É aí que entramos. Começamos por perceber o que já está a ser usado na sua empresa e por quem, ajudamos a escrever as regras internas que hoje não existem, escolhemos consigo a primeira tarefa a resolver, e garantimos que o que aparece ao cliente cumpre as obrigações de transparência que entram em vigor em agosto.
Sem projetos de seis meses e sem promessas de transformação. Uma decisão de cada vez, com resultado medido.
Se reconheceu a sua empresa nalgum ponto deste artigo, vamos conversar.
Fontes
- INE, Inquérito à Utilização de Tecnologias da Informação e da Comunicação nas Empresas, edição de 2025
- Eurostat, dados de utilização de inteligência artificial por pessoas e por empresas na União Europeia, 2025
- Regulamento (UE) 2024/1689, Regulamento Europeu da Inteligência Artificial, obrigações de transparência do artigo 50.º
- Digital Omnibus sobre Inteligência Artificial, aprovado pelo Parlamento Europeu em junho de 2026, que adia para dezembro de 2027 as obrigações dos sistemas de alto risco do Anexo III